Espanha – Cardeal López Romero: "Ser salesiano é minha identidade cristã"

31 março 2022

(ANS - Barcelona) - O cardinalato, a Igreja no Marrocos e no mundo, Dom Bosco, o diálogo inter-religioso... O salesiano Cristóbal López, Arcebispo de Rabat, no Marrocos, e Cardeal desde 2019, falou sobre isso e muito mais na entrevista concedida durante uma recente viagem à Espanha. Seguem algumas passagens.

Vossa Eminência prefere ser apresentado como cardeal ou como salesiano?

Ser salesiano é minha identidade cristã... Para mim, ser cardeal não acrescenta nada a quem sou: essencial para mim é ser cristão e salesiano.

V. Emcia. diz que ser cardeal não é uma promoção. O que representa, então?

É um serviço que me foi foi pedido prestar à Igreja universal. Tudo o mais – ser bispo, ser cardeal... - é consequência da minha vocação batismal. O fundamental é o Batismo que nos torna filhos de Deus e irmãos de Jesus, e de toda a humanidade. Esta é a maior honra, a nossa vocação fundamental. Tudo o mais é serviço.

Dom Bosco, Fundador dos Salesianos, teve sonhos reveladores. Como são os ‘seus’ sonhos para a Igreja?

O Papa Francisco, no documento “Querida Amazônia”, termina um dos capítulos falando sobre quatro sonhos: um sonho social, um sonho cultural, um sonho ecológico, um sonho eclesial. Ele se refere a uma Igreja sinodal, comunitária, na qual avançamos juntos; uma Igreja povo de Deus, em comunhão. Como Ele disse certa vez: "Como gostaria de uma Igreja pobre para os pobres". Uma Igreja em saída, como muitas vezes repete, que saia e se coloque a serviço do mundo para construir a sociedade segundo os critérios do Evangelho; uma Igreja que vá ao encontro de quem está ferido. Uma Igreja assim é o que eu sonho e, neste sonho, eu concordo plenamente com as expressões do Papa Francisco e com o que eu entendo por Evangelho.

V. Emcia. é Cardeal em Rabat, Marrocos, um país onde os cristãos são minoria. O que a Igreja está fazendo no Marrocos?

Ali, eu me converti. Não agora. Quando estive em Kenitra, durante oito anos. Eu vinha de uma situação completamente diferente, do cristianismo, do Paraguai, onde 99% das pessoas eram batizadas. Agora me encontro em um lugar onde os cristãos são uma minoria absoluta, onde não temos peso social. Faz-nos refletir sobre o que estamos a fazer ali; que significado tem a presença da Igreja ali. Uma empresa comercial já teria se retirado, depois de tantos anos sem "lucro". Nós permanecemos, porque acreditamos que estamos aqui porque Deus nos chama a estar aqui. Então, descobrimos o que espero que toda a Igreja descubra: o objetivo é o Reino de Deus, não a Igreja. Não estamos aqui para ampliar a Igreja: estamos aqui para anunciar Cristo e o Evangelho. E o fazemos por meio do nosso testemunho pessoal, do nosso trabalho para construir um mundo melhor e para fazer da humanidade, cada vez mais, Família de Deus, unida e fraterna. Vivemos com alegria nossa Fé cristã aqui, em minoria.

O diálogo inter-religioso é feito no dia a dia ou vem das altas esferas?

O diálogo islâmico-cristão é vivido, antes de tudo, por meio da convivência, na vida cotidiana, na amizade, na boa vizinhança, no trabalho. Eu recomendo um lema que diz "fale menos dos muçulmanos e fale mais com os muçulmanos". Quando você fala com um muçulmano e pergunta sobre suas preocupações, como ele vive, quais são as coisas que o afligem, você percebe que ele é como nós. O diálogo inter-religioso consiste nisto e ocorre quase naturalmente. Há também o diálogo das obras, o trabalho conjunto pelos direitos humanos, pelas grandes causas da humanidade. Neste aspecto também podemos ter projetos comuns.

Onde a Igreja deveria estar hoje?

Onde estiverem as pessoas humanas, especialmente os mais pobres e abandonados. A Igreja, que não é só feita de Bispos, deve estar onde há dor. Os cristãos devem ser como o sangue, que vai até à ferida sem ser chamado. Quando o sangue brota da ferida, não é que ele queira escapar; o que ele quer é proteger a ferida por meio das plaquetas. Um cristão deve estar onde há uma ferida no mundo, procurando curar aquela ferida. É preciso estar em todos os lugares. Mas acima de tudo onde há uma ferida.

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