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Brasil – Sínodo para a Amazônia: “O mundo precisa mais de nossa atenção, de nosso compromisso”

04 outubro 2019

(ANS – Manous) – Entrevista com o padre Justino Sarmento Rezende, SDB, primeiro indígena brasileiro a ser ordenado sacerdote salesiano e especialista em espiritualidade pastoral indígena e inculturada; Ele integra a Secretaria Especial do Sínodo para a Amazônia e vem colaborando há mais de dois anos na preparação do evento. 

Nordeste Hoje: Quem é o indígena salesiano padre Justino?

Pe. Justino Sarmento Rezende: Nasci numa aldeia denominada Onça Igarapé, situada no distrito de Pari Cachoeira (região do Alto Rio Negro), Amazonas, Brasil.

Eu fui aluno no internato de Pari Cachoeira, de 1970 até 1979, e depois eu fui para o seguimento da vocação à vida salesiana no Centro Vocacional Salesiano, em Manaus, de 1980 até 1982. Prosseguindo o processo formativo, fiz o noviciado em São Carlos, SP, depois fiz minha primeira profissão religiosa e segui os estudos. Fui ordenado sacerdote no dia 2 de junho de 1994, na missão salesiana de Pari Cachoeira, onde fiz meus primeiros anos de estudo.

E depois de padre, onde o senhor atuou?

Pe. Justino: Nesse período eu já estava atuando na Missão Salesiana de Iauaretê, na mesma região do Alto Rio Negro, onde eu comecei a viver minha vida sacerdotal com os povos indígenas, entre eles os povos Tucano, Tariano, Tuiuca, Piratapuia, Dessano, Uianano, Cubeu, Rupita – todos esses povos e outros que habitam a região. Foi com esses povos que eu comecei a sonhar e colocar em prática os meus desejos de fazer diferente a celebração de missas, criar canto na língua tucano, criação de textos bíblicos para a Eucaristia. Nós, como povos indígenas, começamos a introduzir nossos símbolos, instrumentos musicais e ritmos. Foi um momento muito importante na minha vida sacerdotal.

Além dos cursos de Filosofia e Teologia, que os padres fazem, o senhor fez outros cursos, não é verdade?

Pe. Justino: Eu fui estudar em São Paulo, na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, onde fiz curso de Missiologia, em preparação à minha vida missionária. Também serviu para refletir minha prática missionária dos anos anteriores. Quando terminei, voltei para Manaus, onde fiquei atuando com nossos jovens salesianos estudantes de Filosofia, no ano 2000.

Em 2007, eu voltei a Iauaretê. Fiquei como encarregado da Missão Salesiana, como diretor e pároco. Foram os anos onde também comecei a cuidar mais das comunidades do interior para a formação das lideranças, catequistas, ministros extraordinários da Eucaritia…

O senhor também esteve com os indígenas Ianomami?

Pe. Justino: De lá (Iauaretê), eu fui para a Missão Salesiana de Marauiá, com os povos Ianomami, onde fiquei ajudando com educação, catequese, para receberem os sacramentos à iniciação cristã. Fiquei ali com esse povo até o ano de 2016. Em 2017, fui para Manaus, iniciar meu doutorado na Universidade Federal do Amazonas.

Como o senhor começou a ser envolvido com o Sínodo?

Em fevereiro de 2018, chegou o convite para compor o grupo de especialistas para escrever os primeiros textos para o processo de preparação ao Sínodo para a Amazônia.

Eu vejo que todas as histórias anteriores da prática missionária, das coisas boas que conseguia fazer e das dificuldades que sentia, a busca de soluções e os desafios despertaram os organizadores a pensar no meu nome como colaborador, desde o início da preparação do Sínodo.

O fato de estar colaborando há dois anos tem, com certeza, acrescentado muito à sua vida missionária.

Pe. Justino: Tem sido um momento importante na minha vida, momento de aprendizado intenso, (oportunidade) também para contribuir, em nome dos povos indígenas, com os conhecimentos que nós temos e, porque não dizer, com as experiências da vida missionária que nós temos na região do Rio Negro, porque eu sou membro da Congregação Salesiana,  tenho exercido isso em nome dos salesianos, em especial da Inspetoria São Domingos Sávio.

NH: O que os povos da Amazônia esperam do Sínodo?

Pe. Justino: O Sínodo desperta para os povos amazônicos muitas expectativas boas, novos sonhos e esperanças, novos compromissos, nova atenção em relação a questões levantadas durante as escutas. O Sínodo, para nós que estamos mais diretamente (envolvidos), é como uma voz profética a dizer: “O mundo precisa mais de nossa atenção, de nosso compromisso. Precisamos rever algumas atitudes que não estão indo como Deus quer para o mundo”. Então, tinha que vir esse Sínodo para chamar a atenção do mundo todo, os estados nacionais, da Pan-Amazônica, entre outros continentes.

NH: Para o senhor, como alguém que se envolveu tanto na preparação e que vai à assembleia do Sínodo, qual sua expectativa?

Pe. Justino: Como alguém que participou diretamente da preparação, eu tenho grande esperança, assim como muitos povos amazônicos que contribuíram com suas propostas, com seus sonhos. Esperamos obter, com o Sínodo, diversas respostas, caso não forem imediatas, alguns critérios para nós entendermos melhor nossa Igreja, para cuidar do mundo.

Escrito por  Pe. João Carlos Ribeiro, SDB – Nordeste Hoje

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