A viagem missionária começa a preparar V. a partir do instante em que se decide dizer “sim”: a agenda se esvazia e passa a girar em torno de um único nome — o país de destino. (…) A primeira percepção é a de ser estrangeiro em relação à própria casa e às próprias referências: você se torna “aquele que é diferente”, o recém-chegado, aquele que experimenta o peso dos critérios e preconceitos que, tantas vezes, são dirigidos aos outros. Agora, são os outros que os projetam sobre você. Mas a própria experiência da viagem intervém e ensina uma espécie de regra fundamental: deixar-se surpreender. Surpreender-se com a acolhida, a música, o calor, a pobreza, o sofrimento, as lágrimas, a generosidade, a resignação, os odores, a Fé, as Liturgias…
A acolhida, por parte do P. Peter, salesiano ganês que atua em Serra Leoa, e do P. Sony, é calorosa e fraterna, fazendo com que todos se sintam imediatamente em casa. A imersão no trânsito noturno de Monróvia revela, de modo quase palpável, a energia vibrante da África, marcada por um dinamismo contínuo e envolvente.
A Libéria foi profundamente marcada por duas guerras civis, que deslocaram centenas de milhares de pessoas e devastaram a economia do país. Os Salesianos chegaram em 1979 e, pouco depois, em 12 de abril de 1980, ocorreu um golpe militar que resultou no assassinato do então Presidente. Desde o início, os Filhos de Dom Bosco se dedicaram ao cuidado dos jovens, mantendo essa missão durante os anos dramáticos das guerras civis, na crise provocada pelo vírus Ebola e, mais recentemente, durante a pandemia de Covid-19 — um percurso histórico marcado por alternância entre tragédias e reconstrução.
Atualmente, 43,6% da população é composta por crianças e adolescentes de até 14 anos. Nesse contexto, as três Comunidades Salesianas no país mantêm escolas, paróquias, oratórios, centros juvenis, presença pastoral no sistema prisional, iniciativas de acolhimento e reinserção de jovens em situação de rua, programas de formação profissional e diversas atividades de evangelização.
E, imerso em tudo isso, você escuta esse país, observa-o e, depois de poucos dias, terá que dele se despedir, e os quilômetros que percorreu se transformam nas seis horas que o levarão à Serra Leoa por terra; mas a viagem é uma boa mestra e, para não lhe dar a impressão de que entendeu tudo, ela lhe reserva um imprevisto: o carro lhe para no meio da estrada... Ela lhe presenteia com horas de parada não planejadas à beira da estrada, longe de vilarejos, e, no fim, as imagens que você grava na memória e que deixa penetrar com o suor na pele são: o sol, a paisagem de árvores e arbustos à beira da estrada que te dão um pouco de sombra, as crianças que caminham quilômetros a pé para ir à escola e te cumprimentam alegres, as vendedoras de frutas, o passar do tempo...
Finalmente, repartimos com um carro novo que veio em nosso auxílio e chegamos à fronteira, um lugar icônico que define cada nação e talvez cada existência: controle de passaportes, rostos sérios e perguntas de praxe sobre o país de origem, sobre o motivo da viagem… E aí vem a virada, o nome que em tantas partes do mundo é a chave para os sorrisos e as lembranças, antes mesmo da passagem da fronteira: Dom Bosco! “Estudei com Dom Bosco”, “Dom Bosco salvou minha vida”, “Dom Bosco, ah!, tudo bem!”; e o sorriso, a gratidão que você não merece, mas recebe como o presente de quem foi e é hoje Dom Bosco ali. Eles o consolam, o emocionam e as boas-vindas têm um sabor totalmente diferente.
