Itália — No ‘Borgo Ragazzi Don Bosco’, encontro repõe no centro: educação, comunidade, prevenção
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06 fevereiro 2026

(ANS — Roma) — Na sexta-feira, 30 de janeiro de 2026, foi realizado no centro salesiano ‘Borgo Ragazzi Don Bosco’, em Roma, o congresso “O rosto humano da delinquência juvenil — Compreender para reativar o futuro entre educação, comunidade e sistemas de intervenção”. O encontro, amplo e participativo, reuniu instituições, educadores, especialistas e representantes do mundo salesiano em torno de uma questão central: “Como responder à delinquência juvenil sem renunciar a um olhar educativo e humano sobre os jovens?”.

A abertura dos trabalhos ficou a cargo do P. Emanuele De Maria, Diretor da Obra, que leu um trecho das “Memórias”, de Dom Bosco, relacionado à sua experiência nas prisões. Foi um forte retorno às raízes do Sistema Preventivo Salesiano e ao valor de um olhar capaz de enxergar o jovem para além do erro e do delito. Em seguida, o P. De Maria apresentou o Borgo, seu empenho educativo no território e as instituições presentes, destacando a urgência de uma aliança entre todos os atores sociais.

VER OS JOVENS POR TRÁS DA MÁSCARA

Em sua fala, Alessandro Iannini, Responsável pela área educativa de ‘Marginalização e Vulnerabilidade Social «Rimettere le Ali»’, do Borgo Ragazzi Don Bosco, recordou o surgimento do Centro de Atendimento a Menores e a acolhida dos primeiros jovens provenientes do Sistema de Justiça Juvenil, atendo-se no significado do título do congresso. Segundo ele, é fundamental saber ver, para além da máscara visível a todos, os jovens, porque, muitas vezes se observa apenas o que fazem, sem se perguntar pelo que eles carregam dentro de si.

A partir dessa reflexão, foi feito um apelo às Instituições para que invistam de maneira consistente em educação e prevenção, especialmente num contexto histórico em que o debate público tende a se concentrar quase que exclusivamente em segurança e repressão. Trata-se de um chamado já lançado em 2022, durante o congresso “Os jovens são de quem chega antes”: não se pode continuar como espectador; é preciso “chegar antes” da delinquência, com políticas juvenis capazes de acompanhar o crescimento dos jovens.

O TERRITÓRIO E AS RESPONSABILIDADES DAS INSTITUIÇÕES

Giuseppe Battaglia, Assessor para as Periferias do Município de Roma, reconheceu no Borgo Ragazzi Don Bosco uma realidade de grande relevância no trabalho com os jovens, tanto por sua história quanto pelo legado de Dom Bosco e pela qualidade profissional de sua ação educativa.

Na mesma linha, Giovanni Battista Impagliazzo, do Departamento de Políticas Juvenis de Roma Capital, definiu o Borgo um como espaço humano, uma casa para todos, especialmente para aqueles que se sentem ‘fora de lugar’.

O PACTO EDUCATIVO: UMA RESPOSTA CONCRETA DA COMUNIDADE

Por sua vez, o P. Francesco Preite, Presidente da associação «Salesianos para o Social», definiu o Borgo Ragazzi Don Bosco “uma excelência da Itália salesiana”, ressaltando que redescobrir o rosto humano da delinquência significa devolver dignidade às pessoas. Segundo ele, a repressão não é a resposta: detectores de metal não eliminam a delinquência. É preciso prevenir, educar, acompanhar. O Pacto Educativo expressa justamente isso: unir recursos, competências, responsabilidades, visando construir um sistema inclusivo.

A DELINQUÊNCIA HOJE: O VAZIO, O GRUPO E A VERGONHA

A contribuição de Silvio Ciappi, criminólogo clínico e psicoterapeuta, ofereceu uma leitura profunda e articulada da delinquência juvenil contemporânea. Muitas vezes, explicou, não se trata de jovens “a quem falta tudo”, mas de adolescentes aparentemente integrados, que, no entanto, habitam um profundo vazio emotivo e relacional.

“Não existem maçãs podres, mas maçãs num cesto apodrecido”, afirmou, ao descrever uma sociedade que alimenta a lógica do grupo, o tédio, a vergonha, a dificuldade de atenção e a obsessão pelo desempenho. Nesse contexto, a perda torna-se intolerável e pode se transformar em vingança. A única resposta possível é reconstruir a comunidade entendida como civitas, feita de relações reais, encontro, mansidão, corresponsabilidade — um espaço onde se possa redescobrir a felicidade e a diferença, colocando cabeça, mãos e coração no processo educativo.

EDUCAR COMO OPÇÃO DE VIDA

Eraldo Affinati, Escritor e Educador, ofereceu um testemunho a um só tempo pessoal e pedagógico: “Tornei-me educador porque fui um jovem inquieto”. Referindo-se explicitamente ao Sistema Preventivo de Dom Bosco, destacou a necessidade de ser, ao mesmo tempo, amigo e mestre - capaz de entrar na dor do jovem, mas também de indicar limites.

Segundo Affinati, o educador é uma testemunha credível, um verdadeiro “artista dos tempos mortos”, capaz de criar atenção nos momentos informais e de acompanhar a aventura interior dos adolescentes. Só quando o jovem se sente verdadeiramente amado pode confiar e se entregar. Daí a referência à Aldeia Educativa, proposta pelo Papa Francisco: uma comunidade educadora que assume, de forma compartilhada, a responsabilidade pelos jovens.

UM OLHAR “A PARTIR DE DENTRO” DO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO

Encerrando a manhã, o P. Silvano Oni SDB, Capelão do Instituto Penal Juvenil Ferrante Aporti, de Turim, ofereceu um olhar “a partir de dentro” — não só das da instituição, mas sobretudo da vida dos jovens privados de liberdade.

O salesiano destacou as dificuldades estruturais do sistema: superlotação, carências físicas, uma forte tendência a respostas repressivas. Muitos desses jovens, explicou, nunca tiveram ninguém que os ajudasse a formar a consciência; têm dificuldade de elaborar o que fizeram; e olham o mundo adulto com desconfiança.

A única saída possível, concluiu, é aprender a olhar a vida “a partir de baixo”, sem julgamentos apressados, captando as perguntas antes das respostas e reconhecendo o bem que ainda existe em cada Pessoa. Educar para a dignidade — também por meio do cuidado consigo mesmo, da escola, do aprender — exige tempo, paciência, confiança. O que hoje ainda não é, amanhã poderá ser.

InfoANS

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