"A um só tempo, Dom Bosco se dedicava à fundação do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, ao desenvolvimento do projeto dos Salesianos Cooperadores, à criação do Boletim Salesiano e, simultaneamente, à preparação do envio de missionários para a Argentina e para Nice, na França. Muitos diziam que era preciso fortalecer o que já existia; mas esse não era o verdadeiro desafio para ele. De fato, existe uma dimensão missionária que vai além do pragmatismo ou da eficiência, representando uma forma de pensar e de contemplar a realidade que transcende os limites físicos ou simbólicos da presença salesiana”.
- As Constituições Salesianas convidam a ser “sinais e portadores do amor de Deus aos jovens”: o que isso significa hoje?
- Trata-se de uma questão permanentemente atual. Não se trata de uma proposta ideológica ou filosófica, mas de um chamado - o chamado de Jesus Cristo, que propõe e convida. Ao olhar para o exemplo de Dom Bosco, mais do que suas obras, compreende-se a sua identidade. Nos últimos anos, tem-se insistido na necessidade de conhecê-lo como alguém que descobre o plano de Deus.
- O contexto cultural atual é diferente daquele em que ele viveu, mas isso significa que sua mensagem perdeu relevância?
- É fundamental captar a dimensão mais profunda do carisma, que consiste na capacidade de ir ao encontro da Pessoa. O verdadeiro desafio hoje não é apenas definir o que fazer, mas redescobrir quem somos. Tudo aquilo que as Constituições apresentam encontra suas raízes no Evangelho.
A Argentina de hoje não é a mesma de ontem; e a de amanhã será certamente distinta da atual. Nesse cenário dinâmico, abre-se uma oportunidade concreta de compreender, meditar e contemplar o carisma salesiano.
Atualmente, os Salesianos estão presentes em 137 países, em contextos profundamente diversos. Contudo, em todos esses ambientes, “algo acontece” quando há Coirmãos conscientes da própria identidade e enraizados no carisma. Esse “algo” está diretamente ligado ao encontro intencional entre educadores, salesianos, leigos e todos os membros da FS. Por isso, o primeiro grande desafio é não esquecer que possuímos um patrimônio valioso: o carisma salesiano, expresso no Sistema Preventivo.
Assim, o convite a ser sinais e portadores do amor de Deus permanece plenamente atual. A necessidade é evidente. Quando alguém possui verdadeiramente o coração do educador — isto é, está disposto a escutar, a acompanhar sem julgar e a acolher sem impor condições — os jovens respondem.
- Qual é a contribuição deste tempo ao carisma e o que o carisma pode oferecer ao momento histórico atual?
- Pode-se falar do carisma como conceito, mas é mais adequado compreendê-lo a partir da experiência concreta das Pessoas. O carisma salesiano é, antes de tudo, uma experiência vivida. Na medida em que se busca compreendê-lo, torna-se possível perceber como Dom Bosco o viveu em seu tempo e como somos chamados a reinterpretá-lo hoje.
No Sistema Preventivo, quando falamos de razão, não nos referimos a uma categoria filosófica ou ideológica, mas a uma dimensão profundamente prática. A primeira proposta de Dom Bosco foi ir ao encontro da Pessoa. Numa cultura marcada pelo individualismo e pela fragmentação, ele convida a recolocar a Pessoa no centro. A Pessoa não é um número: deseja ser reconhecida e, ao mesmo tempo, procura também conhecer quem a acompanha.
É essencial reconhecer que, entre os jovens, há uma busca crescente por sentido. Vivemos num contexto de declínio da prática religiosa, mas de intensificação da procura por espiritualidade e significado. Trata-se de um dado que precisa ser aprofundado, pois no Ocidente — e, por extensão, também na Argentina — emergem sinais que convidam a fortalecer a Esperança, e não a ceder ao desalento.
Há ainda um desafio significativo na tradução do termo amorevoleza. Não se trata simplesmente de amor, mas de uma atitude que integra desejo e decisão: querer amar e optar por amar. Trata-se de um amor sustentado pela vontade.
E por que isso é relevante? Porque, no contexto atual, as presenças salesianas — escolas, oratórios, paróquias e obras sociais — são ambientes onde a Pessoa se sente em casa. Trata-se de um cenário particularmente favorável, pois responde à necessidade de relações autênticas e de sentido. Surge, então, uma pergunta central: ‘É hoje a família efetivamente um lar ou apenas um espaço de convivência?’, ‘Os vínculos mais profundos ainda se constroem no ambiente familiar ou os jovens os buscam em outros espaços?’.
O tempo que vivemos é complexo, mas também repleto de oportunidades. Quando se promove uma experiência verdadeiramente humanizadora, a resposta dos jovens é imediata. Torna-se, portanto, necessário redescobrir a experiência de Dom Bosco: não como um legado do passado mas como uma realidade viva, capaz de gerar vida no presente.
- Apostas on-line, medicalização, saúde mental… Esses desafios dizem respeito apenas aos jovens argentinos ou configuram uma realidade global?
- A experiência acumulada nos últimos anos, marcada por visitas a diversos países e pelo diálogo direto com os jovens, evidencia que as inquietações são, em grande medida, universais. As questões levantadas no Vietnã são semelhantes às de Madri; as da França encontram eco no Equador. A pergunta central é compreender a origem desses fenômenos. O Papa Francisco já se referira a esse cenário como uma “indiferença globalizada”.
O número de jovens que buscam apoio para questões relacionadas à saúde mental cresce de forma preocupante, não apenas no Ocidente mas em escala global. Entre os fatores determinantes, destacam-se mudanças demográficas, a redução do tamanho das famílias, a fragmentação das relações, o anonimato e o avanço do individualismo. É importante promover a conscientização sobre esses problemas, pois há pais e adultos que não percebem como o mundo digital está a influenciar seus filhos.
Nos ambientes salesianos, os jovens encontram acolhida, escuta e a presença de adultos que os reconhecem como Pessoas. Não sabemos se temos todas as respostas, mas, sem dúvida, temos uma proposta — aquela que Dom Bosco nos confiou como herança.
Há uma responsabilidade significativa: acompanhar educadores e educadoras para que a comunidade educativo-pastoral continue sendo um espaço autenticamente humano, capaz de fortalecer a busca de sentido. Diante das dificuldades, não deve prevalecer a falta de Esperança, mas a convicção de que é possível encontrar significado, sustentado por relações que alimentam e fazem crescer a Esperança no coração.
Fonte: Boletim Salesiano da Argentina
